sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

ADESÃO DA VENEZUELA CONSOLIDA REGIÃO



O Protocolo de Adesão da Venezuela ao Mercosul representa a possibilidade de firmar um projeto de cooperação com autonomia e consolidar a região como ator internacional de peso. Nesse sentido, consiste em um processo que deve ser analisado sob a perspectiva de que não se trata de alianças governamentais transitórias, mas de acordos estratégicos entre Estados nacionais.

Por Inácio Arruda*

A consolidação e o fortalecimento do Mercosul reverte-se de grande importância geopolítica e estratégica. Iniciativas como a constituição da Unasul (União das Nações Sul-Americanas); o Tratado Energético Sul-Americano; a criação do Conselho Sul-Americano de Defesa; e o Banco do Sul são ações indispensáveis ao desenvolvimento integrado e independente da região.
Hoje, as vozes que se levantam contra o ingresso da Venezuela no Mercosul são as mesmas que outrora advogavam a receita neoliberal e defendiam a adesão do Brasil à ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), o que representaria a hegemonia absoluta dos Estados Unidos sobre as Américas. A postura altiva do governo Lula e a mobilização de vastos segmentos de organizações populares esvaziaram a ALCA e reforçaram a integração sul-americana e a diversificação das relações internacionais.
Estratégica e politicamente, a América Latina e a América do Sul, em particular, sempre foram alvo de cobiça. A cada dia, porém, se fortalece o novo ciclo progressista e avançado de alargamento democrático, que possibilita a participação de amplos segmentos populares que foram secularmente impedidos de protagonizar os rumos de suas nações, apesar da visão limitada e preconceituosa de setores vinculados ao poder econômico.Portanto, a vitória extraordinária já obtida no âmbito da Comissão de Relações Exteriores do Senado no último dia 28 abre caminhos para a adesão definitiva da Venezuela ao Mercosul. Além disso, possui um significado progressista e avançado e consolida o enfrentamento das enormes assimetrias herdadas dos períodos autoritários no nosso continente. O que almejamos com o fortalecimento do Mercosul é a abertura de um novo ciclo de desenvolvimento com soberania.

A Venezuela hoje assume posição de destaque neste ciclo, principalmente pela efetivação de propostas voltadas para a inclusão social. Em 1998, a miséria na Venezuela atingia a 20% do habitantes; em 2008, havia diminuído para 9%. Tais avanços sociais incomodam as oligarquias políticas, que negaram, ao longo da história venezuelana, perspectivas promissoras à maioria da população. Nas relações comerciais, o ingresso da Venezuela no Mercosul é extremamente positivo. Empresas brasileiras, por exemplo, estão presentes na Venezula gerando contratos da ordem de US$ 15 bilhões. Entre 1999 e 2008, nossas exportações para a Venezuela aumentaram 850%, representando hoje o maior superávit individual da balança comercial brasileira. Além disso, por termos em comum uma extensa faixa de fronteira, possuímos interesses de integração energéticas e de defesa semelhantes. A presença da Venezuela no Mercosul consolidará ainda mais as relações comerciais com a ampliação dos fluxos econômicos, que beneficiarão diretamente as economias do Norte e Nordeste do Brasil, possibilitando um maior equilíbrio entre as regiões brasileiras. Não podemos subestimar a importância do Mercosul para nosso País, tampouco o papel que sua ampliação há de ter para futuras gerações de brasileiros. Estamos diante da salvaguarda de interesses nacionais e da possibilidade de consolidação do bloco que se forjou nos anos noventa do século passado. O ingresso da Venezuela representa, portanto, forte estímulo à democracia e ao desenvolvimento das nações sul-americanas, com trocas de bens e serviços mais intensas e justas entre os países. Este é o caminho para a redução das desigualdades e para a ampliação da justa distribuição da riqueza socialmente produzida entre nossas populações.


* Senador do PCdoB do Ceará e membro do Parlamento do Mercosul

DESPEDIMENTOS E ELEIÇÃO ADIADA


O Sindicato dos Jornalistas (SJ) está apreensivo com a situação que se vive na "Motorpress", empresa que esta semana anunciou a intenção de despedir 28 trabalhadores, 10 dos quais jornalistas. Entretanto, um erro na elaboração do caderno eleitoral para as eleições dos corpos gerentes do Sindicato dos Jornalistas (SJ) fez com que nele fossem incluídos associados que não tinham as necessárias condições. Assim, a Mesa da Assembleia Geral decidiu anular as eleições marcadas para o dia 10 de Dezembro, cancelar o processo eleitoral em curso e dar início a um novo processo.

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em:
http://www.jornalistas.eu/noticia.asp?id=7698&idCanal=2

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

SOLEDAD, PIAZZOLA...


Reencontrei-me apaixonado, contigo,hoje,PIAZZOLA.
Houvera, sem o saber, antes, um chamamento com letras para que sentisse aquela tua SOLEDADE, que é estremação e declaração de amor e, no fim, no fim mesmo, como nas histórias infantis, nos deixa com a chegada, à estação de todas as chegadas e partidas, de um comboio de silvo e aço.
Eras tu, de novo, Astor, a chegar à minha vida.
Trazias uma Princesa para me levar. E era no mesmo comboio da chegada que ela vinha.
Foi nesse comboio que seguiste rumo aos teus infinitos.
Levavas Esperança e, claro, o teu Príncipe bandonion, que um dia deixaste que eu roçagasse naquele estúdio de luzes meias onde te ouvi sons e palavras…


P.S.1.

O texto que podem ler é produto de várias confluências, vivências e afectividades.
Faço questão de dizer que, na raiz dessas emoções cruzadas, estão duas entrevistas memoráveis que tive a Honra de fazer a este artista imortal. A última das quais, de resto, dois anos antes de ele nos ter deixado.


P.S.2.

Muitos, incontáveis, leitores e leitoras, têm enviado e-mails protestando e com razão por algum relativo silêncio deste meu espaço. Oportunamente, dar-vos-ei as explicações possíveis.
OBRIGADO a todos!


G.P.


Guilherme Pereira

sábado, 24 de Outubro de 2009

PAIXÕES


As paixões são os ventos que enfunam as velas dos barcos, elas fazem-nos naufragar, por vezes, mas sem elas, eles não poderiam singrar.


(William Shakespeare)

VENHA ESSE HOMEM


Que me venha esse homem
depois de alguma chuva
que me prenda de tarde
em sua teia de veludo
que me fira com os olhos
e me penetre em tudo.

Que me venha esse homem
de músculos exatos
com um desejo agreste
com um cheiro de mato
que me prenda de noite
em sua rede de braços
que me perca em seus fios
de algas e sargaços.

Que me venha com força
com gosto de desbravar
que me faça de mata
pra percorrer devagar
que me faça de rio
pra se deixar naufragar.

Que me salve esse homem
com sua febre de fogo
que me prenda no espaço
de seu passo mais louco.


BRUNA LOMBARDI
(na foto, acima)

TÁ TUDO DOIDO?


Mundo fora e em Portugal inevitavelmente se instalou uma bizarra histeria sobre a nova obra – CAIM – de José Saramago,e também sobre algumas entrevistas que concedeu a propósito desta nova edição.
Já li o livro e acompanhei as declarações do autor, que subscrevo sem reservas. Leio a Bíblia desde sempre. Está lá tudo. Que leia, quem não conhece. Que releia quem porventura leu mal ou simplesmente “passou os olhos” pela suposta obra prima dos católicos.
Por falar neles. A Igreja ao seu mais alto nível da hierarquia vai reunir de emergência em Novembro para tomar posição sobre a lei que o PS se prepara para apresentar, a qual finalmente consagrará o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, que evidentemente terá luz verde de uma Assembleia da República maioritariamente de esquerda.
Estes senhores que vão esbracejar sobre a lei foram por acaso a votos?
Que vergonha!


Guilherme Pereira

O DIA DA CRIAÇÃO




I


Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.


Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.


Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.


Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.



II


Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado



III


Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na
terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de
sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.


VINÍCIUS DE MORAIS

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

LEONOR



Leonor
De amor
encorpado
Coisas do presente
Só para quem sente
Coisas do assim e assado.


Não vens ajudar a estas linhas
Que são afinal coisas minhas?
Tás no ripanço é?..
..Por conta da tua mãe
Que te deu a assoalhada
De airbags e placenta molhada?
Tás enganada.


Mal me apareças a berrar
Temos contas para acertar.
Ou tu pensas que isto é atar e por ao fumeiro
E eu assim ordeiro
A esgaravatar versos de olhar?
Temos muito que falar.

G.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

CRIME, FAZEM ELES


O jornal "O Crime" está em dívida com vários jornalistas que lhe prestaram colaboração. A situação arrasta-se há 15 meses, sem que a empresa manifeste qualquer vontade de a regularizar.

Leia mais
em:
http://www.jornalistas.eu/noticia.asp?id=7643&idCanal=572

BRASIL AMEAÇADO



O Brasil é o país que mais perde com a biopirataria. A avaliação é de Bruno Barbosa, coordenador-geral de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Até 2006, ele liderou a Divisão de Fiscalização do Acesso ao Patrimônio Genético, subordinada à Coordenadoria-Geral de Fiscalização do órgão.
Em entrevista ao Estadão, ele afirma que o País deve assumir uma posição de protagonista no debate mundial para garantir a participação das nações mais pobres nos dividendos econômicos e biológicos da biodiversidade.

Estadão: É possível traçar um panorama da biopirataria no País?

Bruno Barbosa: Infelizmente, não. Biopirataria não é o mesmo que tráfico de animais. Não é necessário cruzar a fronteira com o bicho inteiro. Pode ser uma gota de sangue ou uma pena. Às vezes, só uma semente ou, até mesmo, um pouco de terra com microrganismos - qualquer ser vivo interessa aos biopiratas. O importante são as informações genéticas. No limite, pode ser só um arquivo de computador que descreve o DNA da espécie "roubada". Como não há uma lei penal específica para a biopirataria, não conseguimos autorização para realizar tarefas de inteligência essenciais para apurar crimes tão complexos. Contamos só com as penas administrativas - normalmente multas - previstas no decreto nº 5.459 de 2005.

Estadão: qual é a utilidade dessas informações genéticas?

BB: Os genes guardam instruções para a produção de diversas substâncias que despertam interesse da indústria farmacêutica e química. Eles podem ser inseridos nas células de outros seres vivos que se tornam pequenas fábricas para a produção da substância cobiçada. Recentemente, inseriram em cabras o gene responsável pela produção das fibras que compõem a teia de uma aranha. O leite das cabras transgênicas foi processado e purificado e produziu uma fibra tão resistente quanto o aço. Cerca de 40% dos remédios usados hoje já são fruto da biotecnologia. Vale lembrar que a indústria farmacêutica movimenta US$ 400 bilhões por ano (cerca de R$ 700 bilhões). Nessa corrida por novos princípios ativos, o Brasil é o maior alvo.

Estadão: porquê?

BB: Por três motivos. Em primeiro lugar, temos um quinto da biodiversidade do mundo. Em segundo, nossas comunidades tradicionais guardam dicas sobre as plantas e animais mais promissores para a descoberta de compostos com interesse econômico. Em terceiro, temos uma comunidade científica bem estruturada e em expansão: resultados de pesquisas também servem como pistas sobre genes interessantes.

Estadão: Quais seres vivos são mais procurados?

BB: Em geral, aqueles que possuem toxinas: aranhas, escorpiões, centopeias, cobras, sapos etc. Dizem que todo remédio é veneno dosado. Aqui a máxima se aplica. Seria muito conveniente que o Estado brasileiro realizasse um levantamento das patentes internacionais obtidas com o patrimônio genético nacional, uma tarefa muito trabalhosa, mas relativamente simples. Todas as patentes internacionais descrevem o processo de descoberta da inovação.

Estadão: para que serviria esse levantamento?

BB: Para argumentar no cenário político internacional. Em 1992, a Convenção da Diversidade Biológica (CDB), realizada no Rio durante a Eco-92, propôs um tratado que estabelecia o direito à soberania dos povos sobre os recursos genéticos encontrados no seu território. Com exceção dos Estados Unidos, a maioria dos países assinou a convenção. A CDB garante que o país provedor do recurso genético explorado também participe dos dividendos econômicos e tecnológicos oriundos da pesquisa. Também sublinha a importância de um uso sustentável do patrimônio natural.

Estadão: porque ignoram a convenção?

BB: Porque ela não prevê nenhuma sanção para quem a desrespeita. Na prática, só vigora a lei internacional de patentes, conhecida como Acordo sobre Aspectos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (Trips, na sigla em inglês), aprovado em 1994, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). A Trips estabelece três precondições para que uma patente seja aceita: seu objeto deve ser inovador, fruto de uma atividade inventiva e ter aplicação industrial. Ou seja, nem uma palavra sobre respeito à soberania dos povos no acesso a recursos genéticos. Naturalmente, o Trips prevê retaliações para quem desrespeita patente internacional registrada.

Estadão: qual é a solução?

BB: No âmbito internacional, os países com grande biodiversidade - e o Brasil pode desempenhar um importante papel aqui - devem lutar para unir os dois acordos: respeito à propriedade intelectual e respeito ao interesse dos países que cedem sua biodiversidade para o desenvolvimento de produtos. Mas deve haver sentido de urgência. Se esse processo demorar uma ou duas décadas, considerando a velocidade e os investimentos em pesquisas, o prejuízo do Brasil será astronômico.


Fonte
(estadao.com.br)

O NOBEL DE OBAMA


…É curioso como a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Obama serviu aos ultraconservadores americanos - quase todos do Partido Republicano - para tentar destruir o prestígio do Presidente. Para os americanos brancos e racistas, o facto de o Prémio Nobel da Paz ter sido atribuído a um afro--americano (que agora inventaram não ter nascido na América, como se isso tivesse alguma importância) é considerado como uma afronta.Além disso, dizem que Obama não fez ainda nada para merecer o Prémio Nobel. É preciso ter os olhos e os ouvidos fechados à realidade e às transformações que as suas posições geostratégicas causaram e estão a causar no mundo inteiro (China, Rússia, Índia, América Latina, Islão, África, Nações Unidas e, no essencial, por toda a parte por onde passou e discursou) e a esperança de paz global que despertou, para poder afirmar uma tal enormidade. Chamam-lhe pejorativamente socialista, o que para certos americanos retrógrados é uma grande injúria, amigo - e ídolo - dos europeus, o que para os mesmos é, igualmente, muito suspeito.É claro que Obama não é socialista, na acepção que é dada à palavra na Europa, pelos socialistas, pela social-democracia e pelos trabalhistas, que pertencem todos à mesma família ideológica (quando não degeneram e se deixaram ou deixam ainda "colonizar" pelo neoliberalismo). Obama é, fundamentalmente, um humanista e um pacifista, na linha do melhor pioneirismo americano, de Lincoln e Jefferson a Wilson, de Franklin Roosevelt, a Kennedy, Carter (também ele laureado com o Prémio Nobel) e a Clinton. É alguém que quer a paz, o desarmamento (sem excluir o nuclear) e a justiça social no seu País (vide a legislação progressista que está em marcha sobre o serviço de saúde tendencialmente gratuito), a lutar contra a pobreza e a procurar reduzir as gritantes desigualdades entre pessoas independentemente do sexo, da cor, da etnia ou da condição social. Acredita num mundo melhor - e mais justo - e luta por ele, com coragem e persistência.
É isto um crime? Só para um louco fanático ou um egoísta extremo, que se importa apenas com o seu bem-estar e o da família mais próxima. Num mundo em que os desafios são globais e o planeta está sujeito a graves ameaças que, se não forem removidas, põem em causa a sobrevivência da humanidade, só, realmente, um inconsciente, fanático ou um insensato total pode criticar e tentar denegrir, aos olhos dos seus concidadãos, um dirigente, legitimamente eleito, como Barack Obama, que preconiza uma cultura de paz - e não de guerra - e de solidariedade entre Estados e pessoas, para poder fazer face, com sucesso, aos desafios globais que o novo milénio põe à humanidade, no seu conjunto.


MÁRIO SOARES

CAVACO ARRASADO


O caso das alegadas escutas a Belém foi fatal para o Presidente da República. Se em Julho deste ano a actuação de Cavaco Silva era avaliada pelos portugueses com um 15,6, em Outubro a prestação do Chefe de Estado caiu para 9,6, segundo uma sondagem CM/Aximage, efectuada entre 12 e 16 de Outubro. A forma como o Presidente conduziu a polémica das escutas ao Palácio de Belém abalou não só a cooperação estratégica com o Governo, como está a sair cara a Cavaco Silva junto do eleitorado.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

O MEU FOFINHO

KIMBA



Era ao domingo à tarde. Não sei que idade tinha, mas creio que cinco ou seis, talvez menos. Não perdíamos um episódio, eu e o meu primo. Se um de nós estava em casa e o outro na rua quando ia começar, o que estava em casa ia à rua e gritava, muito alto, como quem chamava um cão: Kiiiiiiiimbáááááá. Quando nenhum de nós estava, era a minha mãe ou a minha tia que vinham à janela gritar por nós. Mas não gritavam da mesma maneira. Era mais: “Meninos, o Kimba”. Se estivéssemos longe, na vinha, ou no pomar das pereiras, com os cães em explorações e aventuras, podíamos nem ouvir.
Aquele “Kiiiimmmbááááá” sim, era fantástico, épico, empolgante. Fazia parte do ritual, como o tropel pela casa fora, corredor adentro, até à sala, frente à TV. Nunca mais nenhum desenho animado como aquele, o primeiro de que me lembro e, sei-o agora, o primeiro feito no Japão, em 1965 (e de tantos que ainda vi na infância e pré-adolescência). Era a história de um leãozinho branco que sabia falar com as pessoas e queria conciliar os animais da selva com os humanos. Kimba era uma espécie de obreiro de um processo de paz, um negociador e um diplomata a lutar contra os maus instintos e as vontades de poder (personificados pelo leão velho mau e zarolho que o queria matar e ficar rei da selva), de grandes olhos azuis e voz meiga, branco de neve e irresistível. Amávamos o Kimba com paixão e desvelo e quando a série acabou (não me recordo minimamente como, mas estou certa de que bem) chorámos baba e ranho pela injustiça.Toda a vida – até hoje, confesso, mesmo se há muito deixei de ver desenhos animados – esperei que a RTP repusesse o Kimba. Nunca sucedeu. Passou a insuportável Heidi, o tonto do Vicky, o deplorável Marco (e as suas canções inenarráveis que ainda hoje nos deliciam de tão ridículas) e mais quinhentas “animes” (nome japonês dos filmes de animação) mas o leãozinho nunca voltou. Há poucos dias, depois de uma conversa no twitter sobre a série, uma amiga enviou-me o genérico original da versão americana de 1966, a que passou em Portugal. As imagens do leãozinho a correr pela selva e savana com os seus amigos ainda mantêm o sortilégio de me mesmerizar – como quando ao fim daquela correria escada acima e corredor fora me mandava para o chão e ficava muito quieta, quase sustendo a respiração, a ver o episódio, para no fim repetir, como sempre “oh, acabou”.

Acabou, pois. Pode ter voltado a passar sem eu dar por isso, claro – em 1994 foi feita uma nova dobragem da versão americana – e posso talvez comprar o DVD, lançado em 2005 e bestseller nos EUA, da série de 1966. Posso até ver a nova série, iniciada o mês passado no Japão, na Fuji TV, ou a anterior nova versão, de 1989. Ou posso ir ver o Rei Leão e, como tantos outros – houve um protesto massivo de fãs e dezenas de artigos nos jornais, além de um abaixo-assinado de mais de mil autores de manga e anime japoneses a exigir à Disney que admitisse plágio – reconhecer o meu Kimba na história. Mas melhor nunca mais sequer tentar ver o Kimba além dos breves momentos de um genérico. Como Os Pequenos Vagabundos ou o Lagardère (cujo genérico elegante e básico encontrei também no Youtube), as minhas outras duas melhores recordações de infância da TV, o Kimba deve ser deixado como está, onde está. Há lugares onde, mesmo que existam ainda, é impossível regressar.


FERNANDA CÂNCIO
(jornalista, foto acima)

TÉ QUE ENFIM MÃE!



NOTA

Por (imperdoável) lapso meu, não referi que as imagens do post anterior, bem como deste, são de autoria de uma querida companheira de trabalho e AMIGA, obviamente
(genial) jornalista da imagem, com a qual tenho tido o prazer e orgulho de partilhar momentos profissionais e pessoais inesquecíveis em Portugal e mundo fora.
Ela chama-se Susana.
A um apelo meu, e por causa de uma criança que um dia destes andarilhará por aí, a minha camarada de ofício tem-me oferecido peças como estas. Não lhe digo obrigado.
O amor que partilho ou divido com amigos não se (nos) obriga nem agradece.


G.P.

domingo, 18 de Outubro de 2009

TALVEZ MAGIAS







As crianças
Não existem antes de nós
E nós sempre começamos
E andamos
Depois dos gatinhanços
E elas acontecerem.
Viverem.

O mistério do parto
É pois certamente
Descoberta Magia Convulsão
Implosão
Do terramoto que não mente.

Será tudo menos o começo.
Símios, atropóides, macacos e gorilas
A criança que ainda não meço
É o princípio de todas as filas.


G.P.

P.S.


GP

sábado, 17 de Outubro de 2009

ALÉM

EU TE SOFRI


Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de cordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.


FEDERICO GARCIA LORCA

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

JORNALISMO, MENTIRAS E BELÉM


Faz domingo um mês, o DN publicou o mail de um jornalista do Público que narra um encontro, em Abril de 2008, com o assessor de Cavaco para a Comunicação, Fernando Lima, em que este lhe comunicou a suspeita de que a Presidência estaria a ser vigiada pelo Governo e lhe sugeriu que o jornal noticiasse o assunto "fingindo" que este surgira da Madeira. Faz também dois meses que a primeira notícia sobre as "suspeitas" de Belém saiu no Público.
Esta semana, no programa da RTP1 Prós e Contras, o caso foi discutido do ponto de vista jornalístico, com os directores do DN e Público. Estiveram também o do Expresso, o da TSF e o do departamento de informação da RTP. Dos cinco, quatro (a excepção foi o do Público) não tiveram pejo em afirmar que não acreditavam que alguma vez o Governo tivesse vigiado a Presidência. Como se explica então que toda a comunicação social tenha embarcado na "notícia"? A justificação foi dada no programa: a simples vocalização das "suspeitas" era notícia por "abrir uma crise institucional". É certo. Aliás, se havia notícia para dar desde o início - desde Abril de 2008 - era a de que um assessor do PR, homem da sua confiança há décadas, propôs uma inventona a um jornalista. Mas o jornalista alinhou em vez de a denunciar, pedindo ao correspondente na Madeira que investigasse. A "notícia", sabe-se, não saiu logo. Justifica o director do Público, na resposta que deu ao provedor do mesmo e que foi publicada a 13 de Setembro de 2009: na altura não havia suficiente "confiança" para a publicar nem "fonte autorizada". Na verdade, a investigação feita pelo correspondente contradissera as "informações" dadas pelo assessor do PR. Mas ano e meio mais tarde a "notícia" saiu mesmo.
Porquê? Explica José Manuel Fernandes: "Um membro da Casa Civil do PR confirmou formalmente ao Público (...). No dia em que uma fonte autorizada(...) assume que no Palácio de Belém se suspeita de que o Governo montou um sistema para vigiar os movimentos do Presidente, essa informação tem uma tal importância e gravidade que só podia ter o destaque que teve." Ignoremos que esta "notícia", a qual segundo Fernandes "estava a ser investigada há ano e meio", não só não continha qualquer reacção do acusado, o Governo, como se escusava a concretizar a forma da qual se revestiria o tal "sistema de vigilância" e quem dele se ocuparia; concentremo-nos na "autorização" e no "formalmente". Se quase toda a gente, após a publicação do mail, se convenceu de que a fonte "autorizada" era Lima, Fernandes nega-o. No dia seguinte ao da comunicação de Cavaco, o seu editorial é claríssimo: "'O PR não desautorizou ontem os membros da Casa Civil que falaram ao Público: disse que só ele fala em seu nome - ele e os chefes da Casa Civil e da Casa Militar."O que Fernandes nos anda a dizer há semanas é que quem "confirmou as suspeitas" ao Público foi uma ou mais dessas três pessoas. Ou seja, o próprio Presidente. Claro que Fernandes pode estar a mentir. Mas e se não estiver? Como muitas outras perguntas que o caso suscita, esta deveria estar a ser objecto de séria investigação jornalística. Porém, desde que Cavaco falou, os chamados "fluxos noticiosos" desviaram-se do assunto. Watergate é, está visto, uma coisa para a América, para filmes e para escolas de jornalismo. Bigger than life. E nós somos pequenos.



FERNANDA CÂNCIO
(jornalista, in DN)

ÓPERA BUFA EM SÃO BENTO


Houvesse público nas estreias de ópera em São Bento, ontem assistia-se à maior das pateadas. Um empresário (de facto, uma presidente de partido, mas vamos por empresário para entendermos bem a história) espalhou cartazes pela cidade (Braga, por exemplo), anunciando: "Plácido Domingo - Espectáculos a partir de 15 de Outubro!" No dia único em que as bilheteiras estavam abertas, 27 de Setembro, multidões correram a comprar o direito de poder ver o cabeça de cartaz. E, a partir de ontem, esperava-se que o tenor aparecesse para maravilhar ao longo da temporada de quatro anos. Mas, ontem, Plácido Domingo saltou para o palco e anunciou que aquele quadriénio para o qual se tinha comprometido eram, afinal, 30 minutos, tempo para avisar que não cantaria, nem ontem nem nunca mais. E anunciava que, em vez dele, o amável público teria Xico Falsete, cantor fanhoso. Como houve surpresa na plateia, Plácido Domingo mostrou que nas letras pequeninas do cartaz (como nos contratos aldrabados das companhias de seguro) se dizia que havia um Xico Falsete, 7.º do elenco. E assim se soube que um quase anónimo cantor de coro passou a prima-dona. Esta a história, quase verdadeira. Quase porque chamar a Deus Pinheiro Plácido Domingo é manifesto exagero.

FERREIRA FERNANDES
(jornalista, DN)

P.S.

João de Deus Pinheiro, na foto, cabeça de lista do PSD pelo círculo de Braga, renunciou ontem ao mandato, 30 minutos depois se ter apresentado na Assembleia da República, para cumprir o mandato de quatro anos para que fora eleito.Quem não tem vergonha todo o mundo é seu.

G.P.

COERÊNCIA...


Esta a capa da edição de hoje do semanário SOL, que costumava trazer na primeira página a informação de que este “é o jornal que não oferece brindes”, mais coisa menos coisa.
Aqui fica a prova de que a coerência tem dias e as audiências(desastrosas, no caso em questão) são ainda quem mais ordena.


G.P.

TEM PIADA:)

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

NOVO MINISTRO


Chegadinho de Bolonha, tive ainda tempo para ir à AR. Dia mau: a barafunda era geral, sobretudo com as novas 105 caras a saber novas da casa, em filas e fotografias para a posteridade e resmas de câmaras de TV. Para memória futura, fica a eleição por maioria absolutíssima de JAIME GAMA para liderança da AR e o aparecimento de muitas deputadas mulheres - PS e BE sobretudo. Outras chegarão, visto que há deputados ( Sócrates é um deles) que já têm outras funções de Estado que irão cumprir. Alberto Martins cedeu o lugar na liderança da bancada PS a Francisco Assis – temos o novo Ministro da Justiça ou Assuntos Parlamentares na calha?
Oxalá.


G.P.

A DEPUTADA


A Inês de Medeiros toma hoje posse como deputada.
Deixas-me feliz, moça.
Por ti e o teu trabalho, obviamente, mas sobretudo porque sou amigo e admirador do teu pai sábio e herói.
Contigo, estarão outros da blogosfera: o Miguel Vale de Almeida, por exemplo, que é exemplo que se mostre.
Boa sorte, miúda!


G.P.

BOLONHA



Escrevo a partir de Bolonha, de cuja universidade sou desde agora professor.Lisboa, bye.
Roda-viva: aos domingos, saio da capital à noite por via aérea, regresso às quintas feiras de manhã.
Bolonha é uma cidade estranha e linda. Dela vos falarei neste espaço ao longo dos tempos.
A universidade já não é o que diz, por exemplo, a conhecida wilkipedia, que se limita a meia dúzia de lugares comuns ou imprecisos e fantochadas.Factos: é, efectivamente,a mais antiga Universidade da Europa e a terceira do mundo, foi fundada em Bolonha,(haveria de ser onde?)em Itália, 1088, por acaso na Idade Média e tornou-se conhecida na Europa por causa das faculdades de Humanidades e Direito Civil ou dos criadores Dante e Petrarca, que aqui estudaram.Chamada oficialmente Alma mater studiorum, trata-se efectivamente de uma universidade pública para estudantes dos dois sexos, ( as propinas são cinco vezes mais caras que em Portugal)estando mundialmente reconhecida especialmente pelos cursos de Artes, Direito, Medicina, Farmácia, Matemática, Engenharia, Agronomia, Medicina Veterinária, Pedagogia e há 3 anos Ciências da Informação e Jornalismo.
Diz também a mesma fonte que o semiólogo e escritor italiano Umberto Eco é o titular da cadeira de Semiótica nesta universidade e que o ex-primeiro-ministro da Itália, Romano Prodi, é professor do departamento de Economia – treta: nenhum deles exerce essas funções há uma porrada de tempo.
Prometo, nesta vertigem nova da minha vida, ir-vos contando algumas coisas, de preferência verdadeiras.
Costumo dizer aos meus alunos que é pouco aconselhável fazeram pesquisa nos googles e afins (há "professores" em Lisboa organizados para vender teses de mestrado)sendo que, para isso, e que por enquanto ainda se saiba, existem esses casulos mesquinhos chamados de bibliotecas.
Um exemplo: nos chamados sites de pesquisa de informação, pouco ou quase nada se sabe sobre o Acordo de Bolonha, razão (justamente) pela qual ando agora por estes lados.
Com sacrifício, reconheço porque esta merda envelhece, mas muito orgulho.
É, seguramente, a última etapa profissional da minha vida.
Digo eu, que não tenho onde cair morto.



Guilherme Pereira